Quando alguém - qualquer que seja a potência de sua força - é separado daquilo que pode, não lhe resta outra alternativa senão transformar-se num poço de recriminação e de ressentimento, num desejo impotente de vingança, num veneno amargo que corrompe a si próprio e ao mundo que o cerca. Privado de si, só pode tomar o outro como fonte de referência; castrado, só pode invejar e culpabilizar a potência do outro; impossibilitado de ação presente, só pode re-sentir o passado, eternizando o que era contingente e fortuito. O escravo é, pois, o símbolo do que de pior a humanidade pode produzir. Seu desejo é de que o presente lhe renda dividendos, lucros, pelo que perdeu no passado, de que o mundo o compense pelas infelicidades que sofreu. Ele desconhece o acaso como força produtora do mundo e a vida como jogo incessante. Como diria Heráclito, ele é uma alma molhada, que percebe o mundo como injustiça e a si próprio como injustiçado por não compreender que justo é o próprio jogo, o próprio acaso, independente do resultado produzido. Falta-lhe espírito lúdico, falta-lhe inocência. Ele representa a provação, a carência. Mas ele designa menos um indivíduo que circuitos de subjetividade, territórios de nossas vidas dominados por forças reativas, ora mais delimitados, ora mais inclusivos. O escravo habita-nos.
– Alfredo Naffah Neto, no seu ensaio “O inconsciente como potência subversiva”. (via meusgrifos)
Quando alguém - qualquer que seja a potência de sua força - é separado daquilo que pode, não lhe resta outra alternativa senão transformar-se num poço de recriminação e de ressentimento, num desejo impotente de vingança, num veneno amargo que corrompe a si próprio e ao mundo que o cerca. Privado de si, só pode tomar o outro como fonte de referência; castrado, só pode invejar e culpabilizar a potência do outro; impossibilitado de ação presente, só pode re-sentir o passado, eternizando o que era contingente e fortuito. O escravo é, pois, o símbolo do que de pior a humanidade pode produzir. Seu desejo é de que o presente lhe renda dividendos, lucros, pelo que perdeu no passado, de que o mundo o compense pelas infelicidades que sofreu. Ele desconhece o acaso como força produtora do mundo e a vida como jogo incessante. Como diria Heráclito, ele é uma alma molhada, que percebe o mundo como injustiça e a si próprio como injustiçado por não compreender que justo é o próprio jogo, o próprio acaso, independente do resultado produzido. Falta-lhe espírito lúdico, falta-lhe inocência. Ele representa a provação, a carência. Mas ele designa menos um indivíduo que circuitos de subjetividade, territórios de nossas vidas dominados por forças reativas, ora mais delimitados, ora mais inclusivos. O escravo habita-nos.
– Alfredo Naffah Neto, no seu ensaio “O inconsciente como potência subversiva”. (via meusgrifos)
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